Fogo Amigo

Semana passada faleceu o crítico de cinema Rubens Evald Filho. Não posso dizer que não fiquei impactada. Nesses últimos anos eu não gostava nada dele, discordava de quase tudo que ele dizia, mas ele foi a minha primeira referência de crítica de cinema. Eu já comentei aqui mais de uma vez que eu cresci lendo revista Set e vendo as transmissões do Oscar comentadas por ele. É bastante surreal que até hoje o nome dele seja o mais conhecido do ramo, o que mostra o quão desvalorizada a profissão é. Mas não é esse o meu ponto, apesar de discordar dele eu entendo a importância que ele teve na minha vida. Não só na minha, pelo que vi nas minhas redes sociais. Diversas pessoas lamentavam a sua morte e ressaltavam a sua importância.

Também na semana passada eu vi o novo documentário da Petra Costa, Democracia em Vertigem. Gosto dos filmes anteriores dela, mas sempre torci um pouco o nariz para aquela coisa de classe média. Isso, obviamente, não tira o mérito do trabalho dela, é apenas uma questão que me incomoda. Mas quanto a esse novo filme, eu não tenho do que reclamar. Chorei litros recordando tudo que nosso país viveu de 2013 para cá. Fiquei o feriado todo meio afastada das redes sociais e só hoje fui ler alguns comentários. Muita gente criticou a ausência da Marielle Franco. Verdade, eu não tinha pensado nisso. Vi muita gente reclamando, dizendo que o tom pessoal não é bom e assim por diante.

Vejo alguns problemas de andamento no documentário, mas acima de tudo eu fico bem feliz de ver o filme disponível na maior plataforma de streaming. Sabe aquelas pessoas que assistem qualquer coisa que a Netflix lança? Então, possivelmente ela vai ver esse documentário. E se ela tiver uma ideia errada sobre o golpe, talvez o filme a ajude a enxergar as coisas de outra forma. Como eu disse para um amigo, ele pode ter problemas, mas não é problemático, coisa que é bem rara nos dias de hoje. Ao invés de criticarmos tanto quem está do nosso lado, seria bom deixar algumas coisas passarem por um bem maior. Um exemplo chulo, Felipe Neto. O cara tem acesso a muita, mas muita gente, e ele fala algumas coisas bastante válidas. Por que criticar?

O que me fez pensar em mais alguns casos, entre eles o da diretora Haifaa Al-Mansour, nascida na Arábia Saudita. Li em algum lugar, que não me recordo, que ela dirigiu os atores homens de seu primeiro filme O Sonho de Wadjda por um walk talk, pois pelas leis do país, ela não poderia falar diretamente com eles. Aí ela saiu de lá e filmou uma biografia de Mary Shelley, com Elle Fanning como protagonista. O filme é bom? Não, mas ele é bastante importante.

Mary Shelley foi uma das primeiras escritoras de ficção científica e sua criatura de Frankenstein já a ultrapassou, faz parte da cultura pop. O monstro verde com parafusos na cabeça é conhecido basicamente por todo mundo, ao contrário de sua criadora. A escritora é uma das mais importantes e nunca tinha ganhado um filme, novamente, ao contrário de sua criatura, que tem milhares de adaptações. Uma diretora vinda da Arábia Saudita faz o filme e merece todos os elogios, mesmo que o roteiro tenha falhas.

Aqui aproveito para citar Rupi Kaur. Eu gostei muito de Outros Jeitos de Usar a Boca quando o li pela primeira vez em 2017. Reli no começo desse ano e o impacto não foi o mesmo. Fico bastante incomodada com as críticas, dizendo que ela escreve frases de efeito apenas pulando de linha. Kaur levou a poesia a muitas jovens, com frases de efeito sim, mas que fazem sentido. Ou querem que uma jovem de 15 anos tenha epifanias lendo Hilda Hilst?

Rupi Kaur é uma porta de entrada para a poesia de Florbela Espanca, de Adélia Prado, de Sylvia Plath e até mesmo de Hilda Hilst. Não se pode criticá-la por ser comercial. E como a Jarid Arraes disse uma vez, se se preocupassem tanto com forma e estrutura de poesia, estariam lendo cordel. Eu, com 15 anos queria ter lido as poesias da Kaur, e não poemas chatos sobre vasos.

Meu último texto aqui foi sobre o terror ruim, já escrevi sobre comédia romântica ruim e acho que devemos parar de reclamar de tudo apenas pelo prazer de reclamar. Claro, o que é problemático tem que ser apontado sempre. Eu fiz isso no meu último texto do Cine Varda, mas acho importante a gente reconhecer quando uma coisa tem efeitos positivos, ainda mais para o grande público.

E como sempre gosto de citar, uma fala do filme Liberal Arts (que eu não gosto nadinha, mas adoro a frase): “Você acha que é legal odiar as coisas, mas não é. Fale das coisas que você ama e fique quieto sobre as que não gosta.”

Imagem de capa: cena do filme Mary Shelley, de Haifaa Al-Mansour (2017).

 


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