há muitas luzes

Acordei cedo demais nessa manhã pós-carnaval, tomada por ansiedades de decisões importantes. Meus gatos grudaram em mim ronroando, mas nem assim caí no sono. Decidi pegar um livro que há tempos me esperava na escrivaninha, Estar onde eu não estou, de Olivia Gutierrez.

Fica até difícil falar do livro de uma amiga minha. Não me sinto no direito de dizer “eu entendi isso e isso desse poema”, sendo que a conheço. E se não for nada disso? Mas acho que aí que está a graça. Na dedicatória, ela disse que escreveu esse livro na época em que trocávamos longos e-mails falando da vida. Uma das decisões mais importantes dos últimos tempos eu tomei logo após uma conversa com ela. Poesia e vida se entrelaçam.

Conheço a Olivia há anos, nos adicionamos em redes sociais por causa de amigos em comum e fiquei encantada com ela quando a conheci pessoalmente. Estivemos numa mesma festa tomando cerveja, ela de vermelho-comunista, eu de bruxa. Depois andamos pela Paulista e lembro de ter chovido naquele dia. Conheci alguns poemas dela antes da publicação “oficial” e já tinha amado. O livro em si só confirmou a admiração.

olivia

Estar onde eu não estou foi um dos típicos casos de livros que aparecem nos momentos certos, que me escolhem. Li alguns versos nessa manhã pensando “é isso”. Muitos poemas falam da mãe dela, de coisas específicas, mas eu vejo e sinto a minha. No poema “área hospitalar” ela diz “A gente quase morre por proximidade? Minha mãe tem falado de morte. Penso que se ela morrer eu também devo quase morrer, por proximidade”. Ontem eu estava no carro com a minha falando sobre morte. O assunto não é mais um tabu, apenas uma formalidade a ser discutida.

Meu poema preferido talvez seja “sonho de gato”:

desce 
        você vai
cair
        Não me preocupo
        qualquer coisa é só 
        flutuar

Lá no alto da serra, olhando para aquela vastidão de verde e de azul, meu amigo disse que tinha vontade de pular, não para morrer, apenas para cair. Ele até citou uma música da Florence (que eu preciso conhecer mais) que fala do mesmo tema. Cair, não se espatifar, mas sim flutuar, levitar, leve como a pluma.

Outro poema que se destacou para mim foi “documento com foto”. Ela descreve uma foto sua quando criança: “Eu pensava que tinha sido uma criança feliz, mas dadas as novas evidências percebo meu corpo rígido doer enquanto mexo na cadeira, tentando encontrar uma posição para esquecer que tenho corpo.” Acho que em 2012 eu estava procurando meu título de leitor e encontrei meu passaporte. Eu nasci em 1987 e ele datava de 1989. Durante um período desse ano meu pai estava em Portugal, eu e minha mãe íamos encontrá-lo. A viagem nunca aconteceu.

Era mês de outubro, dia das crianças e eleições, e eu decidi usar a foto do passaporte nas redes sociais. Eu estava com cara de choro, emburrada, com bico. Acho que essa é minha cara até hoje. Dizem que tenho cara de brava. Eu acho que sou séria, não sou dada a sorrisos, estou sempre tensa, assim como eu estava naquela foto para um documento que nunca usei.

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Bom, para mim poesia é isso, identificação. Já disse um milhão de vezes e sempre vou dizer. Me vi nos versos da Olivia, assim como me vejo nas nossas conversas, nos – infelizmente – raros abraços e nas trocas. Leiam poesia de brasileiras contemporâneas, conversem com elas, contem o que vocês entenderam quando leram. E por mais brega que seja, o que sentiram. Poesia é percepção, no meu mundo não tem mais espaço para escansão, apesar de achar divertido de fazer.

Imagem do post: Jeune femme écrivant (1908) de Pierre Bonnard.


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