#desafioleiamulheres Abril

Quase dois meses de quarentena, com pequenas pausas para ir ao mercado e vez ou outra para o trabalho. Não está sendo tão ruim. Eu tenho a minha rotina de trabalho, faço exercícios, cozinho, faço pão, mas no começo estava bem ruim com as leituras. Inventei de ler Mrs. Dalloway na quarentena. Quem faz esse tipo de coisa? Eu estava gostando do livro, mas ele se arrastou por dias que pareceram anos.

Ana Paula Maia, Cristina Judar e Stephen King me colocaram de novo no ritmo. Ontem estava lendo Mr. Mercedes e pensando em desistir do Desafio do Leia Mulheres. Também ontem eu escutei o podcast Reading Glasses e a Mallory O’Meara dizia para não forçarmos uma leitura que não estava andando. Eu trabalho em editora, já tenho minha cota de leituras obrigatórias. Eu estava pronta para escrever aqui falando da minha desistência, até que lembrei que estava com Lobo de Rua da Jana Bianchi no meu kindle.

O tema de abril é uma escritora independente, e Lobo de Rua foi publicado em formato e-book pela Dame Blanche. Conheci a Jana quando gravamos um podcast juntas, depois nos esbarramos na Flip e em outros eventos de livros. Há muito queria ler o livro dela e ontem abri o arquivo só para dar uma olhada. Só parei quando terminei. Eu não sou uma pessoa que lê muita fantasia, Harry Potter (que eu amo!) não me formou como leitora, então perdi muita coisa bacana.

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O livro traz Raul, um garoto em situação de rua, que em certa noite tem um comportamento agressivo e ataca pessoas. No mês seguinte a situação se repete, e ele acorda nu no meio do lixo, com muitas dores pelo corpo. Tito, um imigrante italiano, percebe a condição de Raul e o leva para uma pensão, para que possa tomar um banho e descansar.

Quando acorda, Tito lhe conta a verdade: Raul havia se transformado em um lobisomem. E aqui um diferencial do livro: isso não aconteceu porque ele foi mordido, mas sim porque a “maldição” é sexualmente transmissível. As mulheres são apenas hospedeiras, não se transformam, só passam adiante. Muito bom ver algo em que finalmente as mulheres não são prejudicadas. Tito, também um lobisomem, passa a agir como protetor de Raul. Ele lhe dá dicas de como agir, como se alimentar e mostra onde ele pode se refugiar nas noites de lua cheia.

Jana tem uma escrita muito fluída, coisa que eu já tinha percebido em seu conto no livro Cantigas no Escuro. Gostei muito de como ela trouxe a lenda do lobisomem para a cidade. Cresci ouvindo essa lenda num contexto rural, com histórias de avôs de amigos. Anos depois assisti ao clássico filme da Universal, O Lobisomem, de 1941. Depois veio Crepúsculo, What we do in the shadows, e finalmente o livro da Jana.

Outro ponto importante do livro é a discussão que ela traz sobre a violência e pobreza que a cidade de São Paulo apresenta. Temos a Praça da Sé, crianças famintas e jovens entorpecidos. Desde criança eu passo pela região e fico pensando como o marco zero da cidade pode contar tanta tristeza. Bianchi coloca seu lobisomem justamente nesse centro. Tenho visto muitos filmes de terror nacionais que abordam as periferias e diferenças de classes sociais, mas livro foi o primeiro.

Enfim, tudo isso para dizer que, apesar da fala de certas pessoas, a ficção especulativa brasileira vai muito bem obrigada, basta sair do circuito lugar comum de editoras e escritores que encontraremos várias preciosidades. Lobo de Rua é exatamente isso.


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