Morra, Amor

Eu não conhecia a escritora argentina Ariana Harwicz até a Editora Instante anunciar o lançamento de sua obra de estreia, Morra, Amor, com tradução de Francesca Angiolillo. A capa me deixou hipnotizada: uma foto clichê de uma mãe com seu filho, na cozinha, com um bolo provavelmente feito por elas e xícaras de um conjunto que ela provavelmente só usava quando tinha visitas. Mas os olhos de mãe e filho estão riscados.

A capa e o título me remeteram diretamente a uma visão pouco aceita da maternidade: a de que é difícil. Eu não sou mãe, eu não serei mãe, então eu não tenho a mínima ideia de como seja. O que sei vem de relatos de amigas minhas que são mães solo, dos pais ausentes, ou daqueles que fazem o mínimo e são louvados por isso.

Penso muito nessa coisa de amar alguém só porque tem seu sangue, essas regras impostas pela humanidade desde sempre. E quando isso é quebrado? E quando surgem as dúvidas? Li muitos livros sobre o tema, sinto um aperto na garganta a cada página. Isso porque não tenho a experiência, e para quem tem? Será que se identifica? Será doloroso admitir não ter esse amor todo? Karl Ove Knausgård admitiu em A Morte do Pai que sente mais emoção vendo um quadro do que seus filhos. Uma mulher jamais poderia dizer algo parecido.

Vi que muitos comparam a escrita de Ariana Harwicz com a de Virginia Woolf, por conta do fluxo de pensamentos. Woolf é difícil, Harwicz também, mas o que pegou muito para mim em Morra, Amor foi a crueza das palavras. A autora fala sobre sexo, sobre desejos, coloca os humanos no mesmo patamar dos animais. O animalesco permeia as páginas.

A protagonista é uma mulher estrangeira vivendo com seu companheiro e um bebê, e ela ainda não entendeu seus sentimentos em relação a eles. Logo no começo ela fala que só está nessa situação porque o marido a virou e gozou dentro. Assim, direta e crua. Não há a ideia da concepção divina. Porém, em outros momentos ela se esforça para ser a mãe exemplar, aquela que faz o bolo enfeitado para as visitas.

A sensação que temos é que ela está sofrendo de depressão pós-parto, algo como O papel de parede amarelo. Suas falam confundem o leitor, será um delírio, uma vontade de realmente causar algum mal a si mesma ou ao bebê? O marido não entende o que ela está passando, não oferece uma ajuda. Como sempre, o homem egoísta aos problemas que a mulher está passando só pensa em sexo e em como ela não faz as tarefas esperadas de uma dona de casa.

Quando faço sexo comemoro o aniversário de ausentes. Quando me apaixono, agora mesmo, enquanto me sacudo, lanço terra sobre um caixão. Pouco importa de quem. E quando me masturbo profano covas e quando embalo meu bebê digo amém e quando sorrio desligo um respirador artificial. Acho que essa passagem descreve claramente o clima do livro. Não é fácil, dói ler cada uma dessas palavras, mas é um deleite.

Li esse livro em conjunto com a Juliana Brina e você pode ler a ótima resenha dela no site The [Blank] Garden.


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