Leituras de Quarentena #3

Fui chamada para gravar um podcast sobre o livro da minha vida. Como que a gente escolhe o livro da vida? Há alguns meses fui chamada para uma gravação semelhante e indiquei Confissões do Crematório. Foi uma conversa bastante pessoal, contei coisas da minha vida e etc. Mas dessa vez eu queria algo diferente. Fui de A Redoma de Vidro, da Sylvia Plath.

Acho que a primeira vez que ouvi falar dela foi nos fotologs. Alguém que usava o nome de Esther Greenwood. Cacei por muito tempo aquela edição que saiu pela Record. Preços sempre absurdos, fui atrás de uma em inglês. Queria a das perninhas, mas nunca consegui comprar. Minha primeira edição foi a comemorativa de 50 anos, que eu acho bem feia, mas serviu ao seu propósito e hoje tenho até carinho por ela.

Li o livro no começo de 2014, também conhecido como o pior ano da minha vida. Acompanhei Esther deitada na cama do hotel, enquanto deveria estar vivendo a melhor fase de sua vida. Acompanhei os choque que ela tomou na cabeça, os remédios, o sangramento da primeira vez. Tudo aquilo me impactou demais. No ano seguinte ele foi o escolhido como primeira leitura do Leia Mulheres de São Paulo.

Acho que por isso ele foi tão marcante para mim. Além de toda a identificação, ele marcou o primeiro encontro do projeto que mudou a minha vida. Lembro de estar suando frio, com medo de não aparecer ninguém. No final foi um monte de gente e a conversa foi deliciosa. Outras mulheres tinham se identificado.

Relendo agora durante a quarentena ele perdeu um pouco do brilho para mim. Atualmente estou medicada, fiz muita terapia e consigo lidar melhor com os meus demônios, então consegui enxergar o livro sem me envolver tanto. Esther era uma jovem branca e mimada que dizia muita coisa racista. E era muito gordofóbica. Ela tinha pavor de engordar, ela fazia piadas com pessoas gordas.

Eu sei que mulheres são criadas para serem cristais delicados e magros, discretas e afins, sei que naquela época era ainda pior. Sei que Shirley Jackson se entupia de remédio para emagrecer, mas isso não impede que me doa ler essas piadinhas e ver o corpo magro como o principal objetivo de uma mulher.

Esther estudava James Joyce, estava em Nova Iorque estagiando numa revista prestigiada, e estar magra era o mais importa. Hoje em dia ainda é assim. Muitas mulheres me dizem que eu sou muito bonita, que o problema é com elas mesmas, que elas não querem ser gordas. Não querem ser como eu. Isso dói, na vida, na literatura, no cinema.

Mas claro, eu ainda amo esse livro. Fiquei duas horas falando dele no podcast, imaginando como seria a Sylvia se ela tivesse sido medicada de forma correta, se ela tivesse feito terapia, se ela não tivesse se casado com aquele lixo do Ted Hughes, se sua voz tivesse sido ouvida.

Agora passou um pouco da minha obsessão com escritoras suicidas. Não vejo mais como algo fascinante, mas sim como algo dolorido. Queria ter visto Sylvia velhinha, relembrando seus tempos de Nova Iorque. Queria Virginia velhinha recordando seu amor por Vita, falando do processo de escrita dos livros que vieram depois de Mrs. Dalloway.

Cada leitura tem uma nova dimensão nessa quarentena. Em março e abril estava tudo a passo de tartaruga. Nada despertava minha atenção. Aí veio Stephen King, meu sempre salvador. E teve Elena Ferrante. Reli A Redoma de Vidro, conheci a escrita da Monique Malcher, fiquei apaixonada pela Carson McCullers, dei risada e fiquei angustiada com Ottessa Moshfeg. Literatura salva, não é mesmo?

Tenho feito lives, falado de livros por todos os cantos. Estou fazendo 316545465 leituras conjuntas, escrevo sobre livros, gravo podcasts, mas sinto falta de passar horas dentro de um sebo. Esses dias estou saudosa demais com livros de sebo. Lembro de todos que comprei num que tinha perto da casa dos meus pais. Fico horas passeando pela Estante Virtual.

Queria comprar livros nos sebos do centro, tomar um café e ficar papeando até a hora de voltar para casa, hiegienizar os livros, tomar banho quente, deitar e sentir os pés latejando pelo cansaço de subir a Augusta inteira até a Paulista.


5 thoughts on “Leituras de Quarentena #3

  1. A minha é essa edicao das perninhas, se voce quiser eu te mando 🙂 Já é bem velhinha, porém, o papel está amarelado, e eu encapei com papel contact para conservar a capa (uma mania que peguei dos tempos da escola, e ainda nao abadonei…). Se voce ainda quiser essa edicao e nao se importar com essas coisas, é só falar que eu te envio.

    Ó bom das releituras é que elas sao como palimpsestos das leituras anteriores, mesmo quando o livro perde o brilho depois. 🙂

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  2. Olha, olha, enfim vim no seu domínio pra dizer que tudo por aqui está muito bonito como tudo o que vc faz. Sua escrita é sempre convidativa e a maneira como vc fala das coisas parece que estamos lá sentindo os seus sentimentos. Eu retomei a “blogagem”, engraçado que estava até conversando com o Fe sobre uma suposta internet analógica que agora existe. Em tempos de instagram, twitch e tik tok quem bloga é meio velho kkkk. A propósito, mudou meu estilo tb, me retirei dos escritos mais pessoais pra tentar fazer um caderno virtual das coisas da minha vida… bjs, te amo. vc é sempre inspiração pra mim. ❤ https://meuobturador.blogspot.com/

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