#desafioleiamulheres Julho

Julho era o mês de uma autora premiada. Meus livros estão quase todos na casa dos meus pais. Não vejo minhas estantes desde março. Olhei os poucos livros que tenho aqui em casa e Nuvens da Hilda Machado me saltou aos olhos. Eu gosto muito da poesia que sai pela 34.

Lembro que na época que saiu foi dito “livro póstumo, a autora se matou”. Tenho um pouco de vergonha de confessar que sou dessas que ainda se fascina com histórias trágicas, mesmo tendo experienciado uma bem de perto e não ter sido nada fácil. Hilda Machado se matou em 2007. Ricardo Domeneck organizou o livro em 2017.

Em 2007 eu lia o blog do Ricardo, indicado pela Manu. Eu amava sentar na frente do computador e acompanhar todos aqueles textos de blogs, muita poesia. Engraçado que na época eu não me importava tanto com poesia, ainda estava naquela fase chinfrim de Bukowski. Fora ele, gostava dos portugueses e do Manuel Bandeira. Aliás, recentemente redescobri meu amor pelo Bandeira, talvez ele apareça aqui.

Hilda deixou Nuvens organizado, tinha registrado na Biblioteca Nacional na década de 90. Ricardo a conheceu por causa do poema “Miscasting”, publicado em uma revista em 2004.

feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri
(pág. 79)

O livro não me pegou de cara. Precisei chegar até a página 57 para me apegar. Em “Poeta” Hilda fala das comparações com a outra Hilda, com Orides e Adélia. Amamos todas, mas elas em nada se parecem. Maldita mania de comparar mulheres escritoras apenas porque são escritoras.

Na página 73, com o poema “Brochada” eu já estava entregue:

por dentro me desce uma calma
fria como um véu
no fundo eu sei que a culpa é minha
a grande castradora
escondida atrás da escada
tesourinha afiada na mão

Nos poemas finais ela me parece mais debocha, mais ácida, crítica. Na página 77 ela fala:

Fiódor Mikhaílovitch Dostoiévski me acordou
e dentro da minha orelha gritou
que eu sou gorda e só ando com bichas

O poema que fecha o livro “[Sem Título]” na página 93 diz:

Tem gente que vem a trabalho,
eu vim a passeio – e não gostei –
o resplandecer da alma é efêmero.

Sempre digo que poesia não precisa ser difícil, não precisa ter significados obscuros. Poema é bom por identificação, gosto dos versos que me dizem algo, não escancaradamente, só que me fazem voltar a eles. Leio uma, duas vezes e acho uma nova beleza. Hilda Machado foi aos poucos, no final ela me pegou.

Nuvens ganhou o Jabuti na categoria poesia. Hilda não viu seu trabalho ser publicado e foi premiada após a morte. Eu gosto muito de redescobrir escritoras, de não deixar que sejam esquecidas, mas fico triste. Por que não celebrar uma poeta em vida?


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