A Sucessora

Assim como muitas pessoas, eu também conheci A Sucessora por conta da polêmica envolvendo Daphne Du Maurier. Em 1938 ela publicou o livro Rebecca, que dois anos depois viria a ser adaptado para o cinema por Alfred Hitchcock. Estrelado por Laurence Olivier e Joan Fontaine, foi um grande sucesso.

E A Sucessora nisso? Carolina Nabuco o publicou em 1934 e enviou uma tradução para os Estados Unidos para análise. Pelo que me lembro da fofoca, a Du Murier foi uma das pessoas que analisou a obra. E o resto é história. Ainda não li Rebecca, mas vi o filme do Hitchcock, e ao ler o romance de Nabuco eu percebi muitas similaridades.

Aqui um parênteses bem rápido. A Editora Instante publicou duas obras da autora aqui: A Sucessora e Chama e Cinzas. Dinah Silveira de Queiroz é outra autora que faz parte do catálogo deles. Fico bem feliz de ver o resgate das nossas grandes autoras que estavam esquecidas.

Mas voltando ao romance, ele traz a história de Marina, uma jovem que mora numa fazenda com sua mãe e tem planos de se casar com um primo. Porém, um dia ela conhece Roberto Steen, homem rico e influente do Rio de Janeiro, que pretendia comprar uma propriedade ali perto. Em pouco tempo eles se apaixonam, se casam e ela parte para morar com ele.

Ao chegar na casa ela se depara com um retrato de Alice, esposa de Roberto que havia falecido há algum tempo. Marina começa então a se sentir assombrada pelo retrato, se compara com Alice e sente que todos falam dela o tempo todo. Ela tem vergonha de falar com Roberto sobre esse desconforto, então segue guardando essa angústia até que ela se torne intolerável.

Minha amiga Mia fez um apontamento muito interessante. A Sucessora tem um quê gótico, como vemos em romances como O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. E sim, gótico brasileiro, no ensolarado Rio de Janeiro durante o Carnaval. Inclusive, Marina não quer festejar, mas se obriga a sair com Roberto e amigos para as ruas. O desconforto que ela sente durante a festa é incrivelmente narrado por Carolina Nabuco. Assim como ela, eu também odeio Carnaval, então me identifiquei com cada palavra dessa passagem, que eu considero uma das mais bem escritas da nossa literatura.

Além da história de Marina com o retrato de Alice, Nabuco aborda a questão da escravidão (a autora era filha do abolicionista Joaquim Nabuco), mostrando um pouco da convivência de ex-escravos na fazendo (passagens bem incômodas, eu diria) e também faz um belo retrato do que era o Rio de Janeiro na década de 20 para a elite.

Eu não gostei nada do final do livro, mas entendo que ele precisava agradar o público da década de 30, que esperava um final feliz. Tendo isso em mente, considero A Sucessora um dos livros mais legais que já li da nossa literatura. Espero que a obra se torne mais conhecida por seu conteúdo incrível, e não apenas por ter sido plagiada.

E ah, existe uma novela baseada no livro, com Nathalia Timberg (grande amor da vida da Jéssica) que eu quero muito ver.

Li esse livro junto com a Mia Sodré e a Jéssica Bandeira, e gravamos um episódio do podcast Querido Clássico.


2 thoughts on “A Sucessora

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