#desafioleiamulheres Agosto

Amora, da Natalia Borges Polesso, foi um dos livros que mais gostei de ler em 2017. Ele me abriu para mundos e possibilidades que eu não sabia que poderiam existir dentro de mim. Quando ela lançou Controle fiquei na expectativa, mas deixei para lê-lo em agosto, por conta do #desafioleiamulheres, que era para escolhermos um livro com temática LGBTQ+. Aproveitei para ler a obra junto com a Juliana Brina, que também escreveu sobre ela no The [Blank] Garden.

Como a capa e o título entregam, o livro é permeado por New Order e Joy Division, duas bandas que fizeram parte da minha adolescência. Sou alguns anos mais nova do que a protagonista Maria Fernanda, mas também passei muitas horas dos meus dias com fones de ouvido. Ao contrário dela, eu saía de casa, ia para o Madame Satã, lugar em que ouvia “Bizarre Love Triangle” e cantava junto enquanto me mexia com meu longo vestido preto.

Em casa, lembro de duas cenas dos meus 13 anos: deitada no sofá com o cd do Placebo no discman, lendo Agatha Christie, e deitada no chão do quarto dos meus pais, lendo Sidney Sheldon enquanto escutava o “disco da vaca” do Pink Floyd na vitrola. Diferente de Maria Fernanda, eu não tinha epilepsia que me travava em casa, eu tinha ânsia de sair, de fazer parte de algo (que passei a fazer parte poucos anos depois e detestei).

Cada capítulo de Controle leva o nome de alguma música do New Order, e às vezes do Joy Division, o início de tudo. Sempre fui mais inclinada para o Joy, perdi as contas de quantas vezes ouvi “She’s Lost Control”. Por causa do livro peguei New Order para ouvir e um monte de memórias apareceu na minha cabeça.

Como comentei acima, Maria Fernanda tem epilepsia, e isso a impede de levar uma vida dentro da dita normalidade. Ela arruma um namorado por internet, ela tem uma relação bastante próxima de Joana, sua melhor amiga, ela demora para arrumar um emprego, não termina os estudos junto com seus colegas, ela se culpa por ter crises, ela faz chantagem com os pais.

É difícil ler isso tudo e de alguma forma não se identificar com algumas passagens. Numa delas Maria Fernanda cai no choro na cozinha, o pai a encara e pergunta “Tu quer que eu chame a tua mãe?”. Isso é muito real, o homem não saber lidar com a filha quase adulta que precisa de um abraço. Essas questões emocionais sempre ficam à cargo da mãe.

Uma vez eu estava chorando no meu quarto por causa de um coração partido. Meu pai entrou no quarto e perguntou o que tinha acontecido. Falei que tinha terminado um namoro. A resposta dele? “Pois arrume outro”. Muito prático. Felizmente herdei um pouco dessa praticidade que se desenvolveu depois dos meus 30 anos.

No final a protagonista se sente melhor, as crises estão controladas. Ela se dá melhor que Ian Curtis. Ela vai para um show do New Order, ela beija duas mulheres, ela percebe que está apaixonada por Joana. A gente torce para que tudo tenha dado certo, mesmo que tenha dado errado por tantos anos. A gente quer que o mesmo aconteça em nossas vidas, mesmo em meio a uma pandemia, sem muita certeza do que vem adiante.

PS: Acabei de ver que hoje é (29 de agosto) é Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Fico feliz de ter escrito esse texto.


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