O ano do pensamento mágico

Em 2013 eu caí no tumblr de uma moça mais ou menos da minha idade. Ela também era gorda, também era obcecada com anos 90 e também amava livros. Aprendi muito sobre feminismo com ela, sobre essa coisa de querer ser um dos caras e de como isso é maléfico para a nossa autoestima.

Num dos posts ela falava sobre a Joan Didion, que eu acho que não conhecia na época. Ela falava que seu livro preferido da autora era O ano do pensamento mágico. Vi que havia sido publicado aqui pela Nova Fronteira, com tradução de Paulo Andrade Lemos. A capa com uma vibe meio autoajuda me deixou ressabiada, mas foi diferente do que eu esperava.

O livro caiu nas minhas mãos no dia 19 de fevereiro de 2014. Dois dias antes do meu aniversário. Naquele ano teve uma festa enorme, cheia de gente. Acho que voltei para a casa e li um pouco desse livro antes de dormir. Pouco mais de um mês depois uma amiga muito querida cometeu suicídio e 2014 foi o meu ano do pensamento mágico.

Reli agora para conversar com minhas amigas no podcast do Querido Clássico e tive uma percepção completamente diferente. Assim como John, marido da Joan, meu pai também sofreu um ataque cardíaco. Foi leve, mas eu passei noites e mais noites em alerta, atenta para cada barulho na casa, preocupada.

Mais de dois anos se passaram, e mesmo assim ainda me preocupo, ainda penso na saúde dele. Nessa semana reparei que a quantidade de cabelos brancos na minha cabeça aumentou. As rugas no rosto da minha mãe também, meu pai está mais frágil, delicado. Ele nunca foi forte, mas sempre o vi carregando coisas pesadas. Agora não pode fazer esforço.

John Gregory Dunne faleceu no dia 30 de dezembro de 2003. Joan Didion estava com ele, enquanto jantavam, e subitamente ele colocou a mão no peito e caiu. Seus dentes da frente se quebraram e havia uma mancha de sangue no chão. Em meio a tudo isso, a filha deles, Quintava, estava internada por causa de uma pneumonia. Ela só ficou sabendo da morte do pai no meio de janeiro.

Eles estavam casados desde a década de 60. Escreveram livros e roteiros de filmes, visitaram Paris, conheceram pessoas famosas, viveram na Califórnia, adotaram a Quintana, sempre estiveram juntos. Joan conta da dor de se dar conta de que está sozinha. E precisa lidar com esse luto longe da filha.

O ano do pensamento mágico é sobre o luto, sobre lembrar do que viveram juntos, e de como essas memórias atravessam o presente. Numa das lembranças ela descreve uma noite de ano novo num hotel no Havaí. Quintana tinha descido para ver as pessoas. John dormia na cama. Joan terminava uma garrafa de vinho na varanda, enquanto via os fogos. Eu que odeio viradas de ano vi beleza nessa passagem deles, senti conforto.

Em fevereiro de 2014 eu só tinha perdido a minha avó. Agora perdi mais pessoas, sinto falta de cada uma delas. Em 2017 saiu um documentário sobre a Joan. Na época ela já estava bem velhinha, com uma aparência muito frágil e senti um aperto no coração lembrando desse livro.

Quintana faleceu em 2005, quase dois anos depois do pai. Joan escreveu outro livro para falar disso, Blue Nights. Quando o li, minha amiga ainda não tinha morrido. Vou reler agora, me parece natural. A morte é natural, creio que o medo dela também.


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