Querido diário

Em janeiro de 2018 eu comecei a ler os Diários da Sylvia Plath e minha ideia era terminar a leitura em dezembro daquele ano, no máximo. Agora, em setembro de 2020, estou lá pela página 124. Ao ler pensamentos íntimos de uma escritora que amo me sinto uma intrusa, ao mesmo tempo que me sinto próxima dela e me permito me identificar com a maioria daquelas palavras.

Na introdução dos Diários da Susan Sontag o filho dela fala algo sobre essa invasão de privacidade. Ao ler aquilo fiquei pensando se a Sontag queria que todo mundo tivesse acesso àqueles pensamentos. Ainda não li os Diários da Virginia Woolf e nem da Anaïs Nin, mas queria saber se elas se sentiriam confortáveis com as palavras expostas.

No livro A Nova Mulher há um texto em que a Marina Colasanti fala sobre a prática de manter diários ao longo da vida. Ela começa falando do diário de infância, que o irmão achou e ficou rindo da declaração de amor dela a um garoto. Logo ela optou por diários com cadeados.

Colasanti fala do diário como uma duplicação de si mesma, uma forma de desabafo, de “escrever até a mão cansar, até a alma aliviar”. Ela também fala dos casos das pessoas que preferem se livrar dos diários, pede que sejam destruídos. Ela não, quer que as filhas e os netos os leiam.

Eu acho que diários são perfeitos exercícios de escrita. Ela diz para não nos preocuparmos com isso, para escrevermos aquilo que se passa pela nossa cabeça. Desde a infância eu tenho a rotina de escrever em cadernos, de criar blogs, enviar newsletters, e-mails para amigos. Estou sempre escrevendo algo. Sou do tipo que prefere fazer uma lista de mercado à mão.

Ontem terminei de ler A Descoberta da Escrita do Karl Ove Knausgård. Ele já foi meu escritor preferido, justamente por publicar seus sentimentos mais íntimos, reais ou não, mas de uma forma com a qual eu poderia me identificar. Hoje não consigo perceber nada em comum entre eu e um homem branco de classe média, mas Knausgård fala abertamente de suas vergonhas e dores, que os homens em geral preferem esconder.

Ana de Amsterdam da Ana Cássia Rebelo é outro exemplo. O livro surgiu de um blog que ela tinha para falar das dores e complicações do dia a dia, da convivência com os filhos e das ditas obrigações de uma mãe. Recentemente reli O Ano do Pensamento Mágico da Joan Didion e me dei conta de que livros de memórias, autobiografias e diários são meus preferidos.

Claro que amo a ficção, amo livros de terror, mas gosto muito de saber a verdade sobre um escritor. Sempre que vejo entrevistas com autores eles reclamam que as pessoas sempre ficam procurando traços deles nas obras. Peço desculpas, sou uma delas. Gosto de saber que Orlando tinha muito da Vita Sackville-West, que a Plath era muito do que está na Esther Greenwood.

A Cidade Solitária da Olivia Laing é um dos meus livros preferidos da vida, justamente por tratar da solidão da própria autora e de diversas personalidades que ela cita ali. Patti Smith foi outra que nos deixou conhecer seu mundo, ou parte dele, e serei eternamente grata por isso.

Imagem de capa de Luis Alvarez Catalá.


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