Para toda a eternidade

Fico meio receosa de falar sobre o livro da Caitlin Doughty no mês em que estou escrevendo sobre terror, porque a obra dela não é desse gênero (até agora, pelo menos). Confissões do Crematório e Para toda a eternidade foram publicados pela Darkside (ambos com tradução de Regiane Winarski), editora especializada em terror, o que pode reforçar a ideia.

A gente associa a morte com o terror, isso é óbvio. É um dos temas mais explorados em livros e filmes do gênero, mas o trabalho de Doughty é diferente. Tanto em seu canal no youtube (Ask a Mortian) quanto em seus livros, ela fala de uma forma bastante aberta e sem tabus sobre a morte. Ela é criadora do The Order of the Good Death que tem como objetivo nos aproximar da morte, não temê-la, mas sim enxergar as coisas como realmente são: uma certeza para todos.

Seu primeiro livro, Confissões do Crematório, é um dos meus cinco preferidos da vida. Não me canso de falar dele e indicá-lo. Aqui escrevi uma resenha sobre ele. Ano passado a autora veio ao Brasil para o lançamento de Para toda a eternidade e eu tive a oportunidade de entrevistá-la e conversar sobre assuntos aleatórios (falamos da morte da minha gata Natasha). Aqui você lê meu relato emocionado.

Em Confissões do Crematório, Caitlin nos traz uma espécie de autobiografia, contando alguns pontos de sua vida, mas focando principalmente na sua carreira na indústria funerária. Esse livro mudou a minha vida e a minha relação com a morte. Para escrever seu próximo trabalho, ela viajou para diversos lugares do mundo para estudar e observar como essas culturas lidam com a morte.

Alguns relatos são fascinantes, como o dos monges tibetanos que quando morrem são colocados no topo de uma montanha para terem seus corpos devorados por abutres. Em outro, numa cidade pequena dos Estados Unidos, as pessoas são cremadas no ar livre, junto com plantas, com toda comunidade reunida.

A primeira vez que ouvi falar das “fazendas de corpos” foi num episódio do saudoso CSI. Na época fiz algumas pesquisas e fiquei bem surpresa de saber que elas realmente existiam. Acho que em 2010 teve uma série chamada The Body Farm, que era bem legal, mas foi cancelada. Na Carolina do Norte Katrina Spade (que veio ao Brasil com a Caitlin) estuda uma forma de fazer com que os corpos se decomponham diretamente na terra e passem a fazer parte dela, o chamado enterro natural.

Os relatos do Japão e da Indonésia mostram como as pessoas são ligadas aos corpos de seus parentes e amigos queridos de uma forma que para nós seria tida como macabra. Em algumas cidades do interior do Brasil eu sei que os velórios acontecem na casa das pessoas, mas nas capitais a morte é muito “higienizada”. Há medo de tocar nos corpos, de espíritos e sei lá mais o que.

Os capítulos que mais gostei foram os que falam do México e da Bolívia. Acho que toda a cultura da América Latina é maravilhosa e não a conhecemos o suficiente. Com a morte não é diferente. O Dia dos Mortos no México se tornou famoso por conta da figura das calaveras, que vemos em muitas tatuagens por aí (a minha eu fiz pouco após a morte de minha avó), mas para além da festa, pouco sabemos.

O relato sobre a Bolívia foi meu preferido. Caitlin fala da Santa Muerte, que eu acho uma figura fascinante. O poder dela é associado a foras da lei, aos pobres, à comunidade LGBT, a criminosos, ou seja, todos aqueles que estão longe do catolicismo. E mesmo assim, na Bolívia, México e até mesmo no Brasil, vemos esse sincretismo de religiões, principalmente para as mulheres. Quando o catolicismo não as abraça, elas buscam apoio nas crenças de seus antepassados, que datam de muitos anos antes da invasão europeia no continente.

A morte não deveria ser um tabu, nem ligada a terror, medo e nojo. É clichê, mas é a única certeza que temos em nossas vidas, então por que não falamos sobre ela? Nesse fim de semana eu conversei com meu pai sobre isso, perguntei se ele queria ser enterrado ou cremado. Ele disse que cremado, e quer que suas cinzas fiquem numa urna na estante, perto dos livros. E essa conversa foi leve e saudável. Eu quero ser cremada, mas quero que minhas cinzas sejam jogadas no mar.


2 thoughts on “Para toda a eternidade

  1. “Confissões do crematório” também é um dos meus livros favoritos da vida, provocou muitas reflexões interessantes e me fez rir até – comprei pensando que seria algo mais terror Darkside, mas me surpreendi. Tô doida pra ler o “Para toda a eternidade”. A Caitlin faz um trabalho muito bacana!

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