#desafioleiamulheres Outubro

Em 2015 eu fui para a Flip pela primeira vez. Eu não fazia muita ideia do que me esperava, então segui meus amigos e pronto. Eles tinham alugado uma daquelas casas antigonas no centro histórico. As madeiras rangiam, se ouvia tudo do andar debaixo e assim por diante. Eu senti medo, de verdade. Não ouvi nada, não vi nada, mas senti medo o tempo todo que eu estive lá.

Por que estou contado isso? Porque eu acabei de reler A Assombração da Casa da Colina de Shirley Jackson. Depois de anos sem novas edições, esse livro saiu aqui pela Suma em 2018 com tradução de Débora Landsberg. Eu já tinha lido a obra há muitos anos num desconfortável e-book, o que prejudicou muito a leitura. Reli neste mês para gravar o podcast do Querido Clássico e já aproveitei para encaixá-lo no #desafioleiamulheres, um livro de terror.

Já li bastante coisa da Shirley, dois romances e mais de 50 contos, e eu nunca canso de me surpreender com um traço da escritora: ela consegue criar uma atmosfera em que nos perguntamos o tempo todo se há algo de sobrenatural ou se as pessoas estão enlouquecendo.

A Assombração da Casa da Colina foi recentemente adaptada para a Netflix pelo grande Mike Flanegan. Gostei muito do resultado, mas é bastante diferente do que Shirley Jackson criou. Para quem, assim como eu, gosta de filmes ou séries que sejam fiéis aos livros, recomendo muito o filme do Robert Wise de 1963, que saiu aqui com o nome de Desafio do Além. Revi hoje, alguns dias após reler o livro, e estou ainda mais apaixonada por ambos.

O Dr. John Montague, doutor em filosofia e antropólogo, queria estudar a reação de pessoas que já haviam lidado com fenômenos paranormais dentro de uma casa dita mal assombrada. Ele aluga a Casa da Colina, que tem um histórico de mortes estranhas, suicídios e várias desgraças. Ele convida diversas pessoas a comparecem, mas só aparecem duas para a estadia na mansão: Eleanor e Theodora.

Eleanor havia perdido a mãe há pouco tempo. Ela tinha dedicado 11 anos de sua vida aos cuidados da mãe doente, e com sua morte ela se sentia finalmente livre para viver a própria vida. A estadia na Casa da Colina seria algo completamente novo e ela não perderia por nada.

Sabemos pouco de Theodora, apenas que ela divide um apartamento com uma amiga e tem o poder de adivinhar o que as pessoas estão pensando. Aqui já adianto que há alguns momentos da obra em que é possível sentir que há uma tensão entre Theodora e Eleanor muito mal resolvida, às vezes estão grudadas, às vezes sem odeiam.

Luke, sobrinho da dona da mansão, se junta ao doutor e às duas mulheres, à pedida da tia. Ela quer que ele esteja presente para saber se a ordem será mantida na casa. E assim começa a convivência dos quatro dentro daquele ambiente com correntes de ar frio, um quarto de criança no qual a filha do dono original da casa faleceu e assim por diante.

Como comentei acima, o tempo todo nos perguntamos se tudo aquilo está realmente acontecendo ou se é fruto da imaginação perturbada de Eleanor. Ela mente para Theodora, diz que tem um apartamento próprio, quando na verdade dorme na sala da casa da irmã. Eleanor é uma mulher confusa, que não encontra espaço na vida de ninguém, e ali na Casa da Colina ela se sente bem vinda, mesmo que isso acabe com a sua sanidade.

Shirley Jackson é uma das minhas escritoras preferidas. Não é a toa que Stephen King e Neil Geiman a citam como uma de suas inspirações. Poucos conseguiram criar atmosferas como as dela. Sempre digo que não existe literatura feminina porque nenhuma mulher precisa escrever como a outra. Com Shirley vou além, ninguém escreve ou escreveu como ela.


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