Querida Konbini

Odeio terminar um ano com pendências. E nesse 2020 eu percebi que não tinha lido dois livros de amigas que estavam comigo. Um deles era justamente Querida Konbini, da Sayaka Murata, traduzido pela Rita Kohl e publicado pela Estação Liberdade. Esse livro estava na lista do Leia Mulheres São Paulo para esse ano, mas com as atividades paradas, o livro foi deixado de lado. Hoje começaram as minhas mini férias, então pela manhã aproveitei para começa-lo. Eu literalmente só larguei quando acabei a leitura.

Konbini é uma espécie de loja de conveniência, que vende produtos de rápido consumo, artigos de papelaria e às vezes possui serviço de entregas, como nos correios. Penso que o equivalente aqui no Brasil (ou em São Paulo) seja o Hirota. Tem um monte de comida pronta, um pouco caras, então não serve para fazer compras do mês. Eu trabalhava perto de um, então sempre ia comprar um salgado à tarde.

Keiko é uma mulher de 36 anos e trabalha há 18 numa konbini. Para as pessoas isso é muito estranho. Esse não é o emprego certo para uma mulher adulta. E Keiko é solteira, olha só o combo. Todos parecem incomodados com isso, menos a própria Keiko, que se adaptou bem à rotina do trabalho e vive bem a sua vida. Logo sabemos que ela foi uma criança que não se adaptava direito à vida na escola. Ela não entendia diversas questões, como por exemplo, por que comer frango e não um passarinho?

Ela cresceu, entrou para a faculdade e arrumou esse emprego, que achavam que seria temporário. 18 anos depois e ela continua nele, mora num apartamento muito pequeno e não tem interesse em conhecer pessoas. Ainda é virgem, não se relaciona com homens e visita apenas a irmã e algumas amigas da época de escola, mas não se sente conectada a nenhuma delas. Uma coisa que me chamou a atenção é que ela não se importa com o sabor da comida. Um pouco de shoyo é o suficiente para ela. E ela não toma chá, apenas água quente lhe basta.

A rotatividade de funcionários na konbini é alta. Por se tratar de um emprego temporário, estudantes e donas de casa assumem os cargos disponíveis. Até que um dia um homem assume o posto, mas parece se importar pouco. Ele não faz as coisas e em certa ocasião confessa à Keiko que só entrou nesse trabalho para arrumar uma esposa. Ele estava cansado de viver sozinho e ser julgado por isso.

Ela pensa na situação e tem uma ideia: por que os dois não passam a viver juntos? Dessa forma iriam suprir uma curiosidade das pessoas e elas os deixariam em paz. O homem é aquele típico encostado, fica em casa sem fazer nada, reclama o tempo todo dela e não trabalha. Mas para ela está bom assim. Desde que ela conta de que há um homem morando com ela as pessoas passaram a reagir de forma mais positiva.

É um enredo bastante simples, focado na cultura do Japão, mas traz um comentário bastante interessante sobre essa coisa da mulher de mais de 30 anos que não supre as expectativas da sociedade. Keiko é diferente do que é esperado de uma mulher, mas ela está bem. Ela gosta de seu trabalho e não sente a necessidade de ter um homem do seu lado, mas isso parece desesperar as pessoas a seu redor. A família fala em “cura”, a irmã fica triste por ela.

Digo que ser mulher é um inferno por vários motivos e esse é um deles. Nenhuma postura que você adote é correta, você sempre vai encontrar questionamentos. Com os anos acho que aprendemos a respondê-los de forma mais assertiva e afastar os olhares curiosos. Eu pelo menos estou tentando.


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