As cabeças das pessoas negras, de Nafissa Thompson-Spires

Quando começou o BBB21 eu silenciei várias pessoas, não queria acompanhar aquilo. Não por preconceito, eu simplesmente não queria mais um vício na minha vida. Mas não adiantou, em pouco tempo as discussões tomaram as redes sociais e todo mundo fala a respeito. Acima de tudo, o que mais me chamou a atenção foi o comportamento da Karol Conká e da Lumena, ambas mulheres negras. Pelo que acompanhei, apenas no twitter, elas foram cruéis com algumas pessoas da casa, principalmente com Lucas, um homem negro.

Karol chegou a questionar Camilla sobre elas serem ambas mulheres negras e estarem discutindo. Camilla falou que aquilo não tinha a ver com militância, mas sim com afinidade. Lázaro Ramos fez um vídeo em seu instagram falando da pluraridade das pessoas negras. Karol Conká foi eliminada do programa com índice recorde de rejeição e é óbvio que muito disso se dá por racismo e misoginia. Não é porque ela é uma mulher negra que não vá errar, mas se fosse um homem branco eu duvido que seria tanto assim. Mas isso é discussão para outro momento.

Em meio a isso tudo, foi publicado aqui no Brasil o livro As cabeças das pessoas negras, estreia de Nafissa Thompson-Spires, com tradução de Carolina Candido e prefácio de Winnie Bueno. Esse foi o primeiro livro da Editora Nacional que li e fiquei feliz por fazer parte do time. Aqui explico o porquê de eu ter começado falando de BBB: o livro traz contos sobre as individualidades das pessoas negras, mostrando que uma não é igual à outra.

Isso parece óbvio, mas a sociedade racista coloca todas as pessoas negras numa única caixa de estereótipos. Novelas mostram pessoas negras como empregadas, mulheres sedutoras, homens bandidos e assim por diante. Nafissa rompe todos esses estereótipos ao trazer um jovem negro que usa lentes de contato coloridas e vai a eventos de cosplay. Em outro conto temos uma mulher que possui distúrbio alimentar. Eu nunca vejo a mídia falando sobre saúde mental das pessoas negras, são sempre os homens brancos estafados e as mulheres brancas sobrecarregadas.

Belles lettres é um dos meus contos preferidos. Duas mães de crianças negras começam uma discussão através de bilhetes que deixam nas mochilas das respectivas filhas. Em outro conto temos uma família de comercial de margarina, com uma esposa que tenta viver uma vida sustentável e uma equipe de TV vai entrevistá-la. O marido não concorda com aquilo, mas tem uma postura submissa. Já em outro, temos uma moça que é viciada em redes sociais, num nível bem pouco saudável.

Como todo livro de contos, tenho aqueles preferidos e aqueles que não me tocaram muito, mas em geral o resultado é mais do que positivo. Nafissa nos convida a pensar o racismo de outra forma. Ele está ali nos contos, é impossível desassociar isso das pessoas negras, neste mundo lixo que vivemos, mas com uma dose muito perfeita de sarcasmo.

Se não bastasse ser uma ótima escritora, com contos diferentes de tudo que já li, ela ainda é a pessoa mais fofa do universo e gravou um vídeo para os leitores brasileiros, e ainda arrisca umas palavras em português.


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