O homem vazio, de Thiago Lee

Há alguns anos eu participava de um podcast e rolou uma parceria com o Curta Ficção. Foi assim que eu conheci o Thiago Lee e a Jana Bianchi, falando de Frankenstein. Logo virei amiga deles, segui em redes sociais, aquela coisa toda. Li o livro da Jana ano passado, até resenhei aqui. Agora foi a vez de O homem vazio, do Thiago. Antes de falar da obra em si, vale dizer que ele foi contemplado pelo 1º Edital de publicação de livros na Cidade de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura. Quando tomamos uma cerveja na Paulista (quando ainda dava pra sair de casa), o Lee me contou todo o processo da publicação independente.

O livro é narrado por duas pessoas, Otto e Ana, irmãos que não se falam, por algum motivo que só vamos descobrir mais para a frente. Otto é um jovem da zona leste, que trabalha para ajudar em casa, sua mãe está doente e ele gasta uma grana alta com remédios. Um dia, andando pela Paulista, ele esbarra num cara idêntico a ele, seu duplo. Confuso, ele desce para a Augusta para tomar uma cerveja e acaba conhecendo Camila.

Ana saiu de casa após uma discussão com a mãe e foi morar com o amigo Caio no centro. Ambos trabalham numa balada chamada Labirinto. Alice é uma cliente que sempre está por lá, mas sozinha, fica num canto com sua bebida. Um dia Ana se aproxima dela e ambas acabam passando a noite juntas. Ana se apega a ela, mas Alice desaparece do nada, deixando seu celular para trás.

O livro do Lee tem diversas camadas. Ele fala bastante da cidade de São Paulo, de cenários que eu conheço bem, como aquela saída do metrô Consolação, que nas noites de sábado ficava abarrotada de gente bebendo algo antes de descer pra Augusta. Durante alguns anos eu fui uma dessas pessoas, mas nos últimos tempos eu era a emburrada esbarrando nelas tentando entrar no metrô pra voltar pra casa. Ele descreve a Augusta, a zona leste, a discrepância do Morumbi, com mansões rodeadas por casas simples.

Os personagens de Lee são pessoas comuns, da periferia, que trabalham e estudam, nenhum ali leva uma vida glamurosa. Ana é lésbica, Otto tenta conciliar o trabalho com um canal no YouTube. A mãe deles, Tereza, namora um cara que Otto não curte muito, que julga sem conhecer direito.

Eu não sou uma leitora muito fiel de livros de ficção especulativa, então tenho receio de falar algo que seja um baita spoiler, mas essa questão da realidade paralela é muito interessante. O portal entre ambas fica no marco zero da cidade, na Praça da Sé, um dos lugares mais lindos de São Paulo, mas também um dos mais tristes e abandonados pelo governo. Otto descobre que está desaparecendo, sendo esquecido pelas pessoas, e aquele seu duplo do começo da história está relacionado.

Gosto também do comentário que Lee faz a respeito de redes sociais. Otto não tem muitos amigos, são poucas as pessoas que sentiriam falta dele. Mas ao ver que seu canal no YouTube começa a ter muitos seguidores e comentários ele cria essa falsa impressão de amizades. Fica o tempo todo olhando para o celular, esperando por novas visitas. O mesmo acontece com Alice, a moça que desaparece no Labirinto.

Acho que essa é a resenha mais fragmentada que já escrevi nesse blog, mas espero que eu tenha despertado em vocês a vontade de ler esse livro. Como disse, não sou a maior conhecedora do gênero, mas amei as referências todas, a diversidade de personagens, e como Lee amarrou a narrativa dos dois irmãos.


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