Cães, de Júlia Grilo

Ano passado (ou foi nesse? tempos de pandemia são confusos) a escritora Mariana Carrara me contou sobre um livro que ela tinha adorado: Cães, da Júlia Grilo. Eu não conhecia a autora, mas disse que ficaria muito feliz em receber a obra. O livro chegou com uma dedicatória linda e como todo livro que chega na minha casa, esperou pelo momento dele. Júlia entrou em contato comigo recentemente e conversa aqui, conversa ali, decidi que era hora de lê-lo.

A leitura não foi fácil, demorei para pegar o ritmo. E o problema não é da escrita, mas sim da densidade das palavras, ainda mais numa época em que a concentração está cada vez mais difícil. Me dediquei ao livro, lendo e relendo algumas páginas ao longo dos dias e aos poucos eu “entendi” o que estava acontecendo.

Cães traz a protagonista humana e a canina, Cafeína. A humana nos conta a história, fala de si mesma, dos embates com a família, principalmente com a mãe que não é dada ao afeto. Todos os traumas da adolescência estão ali, a solidão, o não pertencimento, e o não se se sentir à vontade consigo mesma, nem confortável na própria pele. Sabemos tudo de Cafeína, desde seu nascimento, até como foi parar na casa da narradora.

A relação das duas começa com muito amor e companheirismo, até que Cafeína cresce e precisa se tornar uma cachorra de quintal. O vínculo foi quebrado e nada pode ser feito. Há também Duquesa, uma cachorra de raça que por acaso passou a morar com a família. As duas são estranhas em elas mesmas, mas convivem de uma forma até harmônica.

Cafeína e sua humana se entendiam, antecipavam pensamentos uma da outra. Mas a cachorra quer sair, ver o mundo, ser humana, abrir portões e um dia foge. Ela encontra uma matilha que lhe acolhe, principalmente uma cachorra mais velha e mais experiente, chamada Nia. Ela era bastante útil ao bando, até o dia que não era mais.

Esse é um livro sobre se tornar adulto, sobre os traumas que carregamos e os laços que teimamos em desfazer, para mais tarde voltarmos a eles com cuidado, apertando o nó bem forte. A narrativa é dura, ela expressa a violência pela qual os personagens ali passam, mas também carrega uma espécie de calma melancólica. Ótima estreia da escritora baiana, que conta com uma linda orelha escrita por Laerte e foi lançada pela Editora Penalux.


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