Agora que ele se foi, de Elizabeth Acevedo

Desde que entrei na Editora Nacional eu tenho lido muito YA. Nunca fui grande leitora do gênero, não por não gostar, apenas não saber direito por onde começar. E uma das coisas mais legais do meu trabalho é poder ler alguns livros antes mesmo que sejam lançados, como foi o caso de Agora que ele se foi, de Elizabeth Acevedo, autora norte-americana, com família da República Dominicana.

A primeira coisa que me chamou atenção na leitura é que a narrativa é em versos. Elizabeth narrando seus escritos é uma das coisas mais perfeitas que eu já vi. E sim, me lembrou um pouco o trabalho da Aline Bei, claro que cada uma à sua maneira, mas de certa forma as temáticas de aproximam.

A história gira em torno de duas adolescentes, Camino e Yahaira. Camino mora na República Dominicana com a tia, leva uma vida simples, mas com algum conforto, proporcionado pelo pai, que mora nos Estados Unidos e a visita uma vez por ano. Yahaira, por sua vez, mora nos Estados Unidos com os pais, leva uma vida mais confortável que Camino, namora uma garota e seu pai se ausenta uma vez por ano para cuidar de negócios na República Dominicana. Pois é, é o mesmo, elas são irmãs, e uma não sabe da existência da outra.

Tudo muda quando há um desastre de avião e o pai delas falece. Nesse momento a verdade não pode mais ser escondida de ambas. Yahaira sabia que o pai tinha um segundo casamento, mas não fazia ideia da outra filha, já Camino não sabia de nada. A mãe de Camino havia falecido alguns anos antes, por conta da dengue. A mãe de Yahaira sabia da outra família, mas guardava a mágoa para si.

Mais de dois terços do livro lida com as histórias delas separadas, acompanhando a vida de cada uma no respectivo espaço. Camino começa a ser perseguida por El Cero, um escroto da cidade que procura jovens para um esquema de prostituição. Quando era vivo, seu pai pagava para ele ficar distante da filha, agora não há mais essa proteção e ela corre perigo. Além disso, sua melhor amiga, também adolescente, está grávida e precisa lidar com assédios diários que sofre do chefe.

Já Yahaira é campeã de xadrez, orgulho do pai. Porém quando descobre o segundo casamento dele, ela se afasta. Ela não conseguiu conversar francamente com ele antes do acidente, e isso a corrói. Yahaira mantém um relacionamento de muito tempo com a vizinha Andrea, e isso não é uma questão. A mãe até chega a dar dinheiro para ela comprar um presente no dia dos namorados.

Quando o corpo do pai é encontrado, é realizado um funeral nos Estados Unidos, mas o enterro acontecerá na República Domicana. A mãe de Yahaira não quer estar presente, não quer que a filha vá. Ela compra uma passagem e embarca escondida. Ela quer conhecer a irmã. Claro que o encontro num primeiro momento não é fácil, são muitos sentimentos, lembranças e “o que poderia ter sido”. Mas aos poucos uma começa a entender a outra.

A escrita da Elizabeth tem ritmo, em versos, e a narrativa é fluída. Mesmo quem não está acostumado com a leitura de poesia não vai encontrar estranhamento aqui, da mesma forma que não encontra no trabalho de Aline Bei. Comentei lá em cima que a narrativa delas se aproxima, justamente nessa exposição da situação das mulheres. Agora que ele se foi é classificado como YA, mas os temas que ele aborda vão além. Eu, mulher adulta, me identifiquei com diversas passagens. Agora estou ansiosa para ler mais coisas da autora.

A edição da Editora Nacional conta com tradução de Karine Ribeiro, que fez um trabalho incrível. Imagino que não tenha sido fácil manter o ritmo da escrita em outra língua.


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