Rinha de galos, de María Fernanda Ampuero

De uns tempos para cá tenho visto um resgate de escritoras latino-americanas, e a Editora Moinhos é uma das maiores responsáveis por isso. É bizarro pensar como passamos tanto tempo lendo apenas escritores europeus e dos Estados Unidos, sendo que a América Latina está repleta de escritores maravilhosos. Quando a Moinhos anunciou Rinha de galos eu fiquei interessada logo de cara, ainda mais por se tratar de autora do Equador, María Fernanda Ampuero. Eu nunca tinha lido nada desse país, e agora tenho esse livro em mãos, que chegou ao Brasil com tradução de Silvia Massimini Felix.

Eu sempre brinco que meu gênero literário preferido é o “mulheres maravilhosas que escrevem contos estranhos” e que a rainha é a Mariana Enriquez. Não por acaso, a própria Enriquez assina a orelha de Rinha de galos. Ampuero mal chegou e já está entre as grandes desse gênero.

O primeiro conto, “Leilão”, já mostra a que veio o livro. Uma mulher recorda sua infância passada entre rinhas de galos. Os homens a assediavam, e para se proteger deles, ela cobria o próprio corpo com merda, sangue e vísceras de galos mortos. Ela era um monstro para esses homens. Esse conto me lembrou Reze pelas mulheres roubadas da Jennifer Clement, em que as mães “enfeiavam” suas filhas para que elas não fossem sequestradas. Engraçado pensar que a sociedade nos cobra o embelezamento, depilação, cirurgias, técnicas dolorosas, mas na realidade só a monstruosidade pode nos manter seguras (e nem sempre adianta).

Já o conto “Nam” mostra dois irmãos meio norte-americanos, meio equatorianos, que frequentam a mesma escola da narradora. Ela, gorda e esquisita, é deixada de lado pelos demais, mas os irmãos a acolhem, e ela acolhe a eles. A relação deles se estreita, os sentimentos se confundem, num sentido Os Sonhadores da coisa. Aqui percebi que Ampuero vai quase além da brutalidade de Enriquez, se assemelhando ao que lemos nos livros de Ana Paula Maia.

“Crias” explora o descobrimento do sexo na adolescência. Uma jovem frequenta a casa das vizinhas gêmeas, que têm um irmão mais velho. Esse irmão passa a se interessar pela narradora, um dia ela entra no quarto dele e ali vive sua primeira experiência. A diferença de idade é pouca, mas impossível não pensar nisso com um aperto no peito. Ela reencontra esse cara quando adulta e as memórias vêm a tona.

Uma frase desse conto me deixou bem pensativa: “Ele me perguntou se eu queria ver uma coisa e eu lhe disse que sim, porque toda a vida eu quis ver coisas e porque sempre digo sim aos homens”. A curiosidade aliada à submissão das mulheres é uma combinação bastante perigosa.

“Luto” é o conto mais impactante, mulheres “pecadoras” sendo submetidas aos piores castigos, a vingança contra aquele que causou o mal, a violência, o abuso, a imundície, a omissão, tudo misturado num caos que infelizmente muitas mulheres conhecem. Em cada conto Ampuero traz algum questionamento sobre a situação das mulheres, mas não faz isso de forma doce, ela é cruel, é bestial, escancara a dura realidade ao leitor.

Com uma escrita maravilhosa e um enredo perturbador, cada conto desse livro é uma pequena pérola da literatura contemporânea. Espero que mais editoras sigam os passos da Moinhos e nos tragam livros de países vizinhos, ainda há muita literatura boa a ser descoberta.


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